Os Holandeses na Bahia



Os holandeses na Bahia

Numa palestra desse tipo, cabe tanto um lado quanto o outro da visibilidade que o processo historiográfico possa ter. Da nossa parte, entendemos que começar a falar dos “holandeses” na Bahia em 1624, é um equivoco. Nós estamos aqui prá falar de coisas muito mais amplas. Na verdade, a invasão “holandesa” na Bahia começa em 1580. Os fatores determinantes da invasão “holandesa” na Bahia começam muito antes do nascimento das pessoas que estavam envolvidas no processo.
Então, nós, para entendermos o que foi isso tudo, o episodio baiano, temos que remontar a coisas bem anteriores.
Descoberto o Brasil, no reinado de Dom Manuel, na verdade, não houve uma – digamos – apropriação física, mercantil, rentável da terra nova descoberta. Descoberto o caminho marítimo para as Índias, também imediatamente não se estabeleceu uma base comercial que compensasse os perigos da travessia. Isso é uma coisa lenta, vai para o reinado de Dom João III, filho e sucessor de Dom Manuel.
Ora, eu já disse aqui, se Dom Manuel é conhecido na história do Brasil e na história portuguesa como “O Venturoso”, pelo fato dessas coisas terem acontecido no governo dele; é fora de dúvida que o epíteto, que a qualificação que caberia a Dom João III seria “O Rei Gerente”; foi ele que botou ordem no império, foi ele que tirou partido econômico e financeiro das novas descobertas, foi ele que transformou Portugal, de um pequeno país perdido lá no fundo da península Ibérica, numa potência realmente mercantil da Europa do Século XVII.
Ora, isso não se faz sem preço, isso não se faz sem custos. Toda a Idade Média tinha assistido ao crescimento mercantil das cidades italianas, Genova, Nápoles, sobretudo Veneza, que na Idade Média detinham o comércio com o Oriente através do processo terrestre das caravanas. Com a descoberta do caminho marítimo, há um deslocamento de interesses e esse deslocamento de interesses faz com que os comerciantes se desloquem, saiam também da península Itálica para a península Ibérica, para Portugal e Espanha. Aí começa a ficar interessante.
O governo espanhol era absolutamente intervencionista, as colônias espanholas na América, sendo essencialmente de mineração, tinham, digamos assim, o rei na boca da mina. As situações tributarias eram feitas a partir da taxação direta do metal recolhido na boca da mina para a coroa espanhola. Ao passo que a coroa portuguesa, não; ela foi essencialmente tributarista, criou uma máquina de impostos e não uma máquina de arrecadação direta. Não é tirar tantas oitavas do ouro recolhido, mas tirar tantos reais do açúcar comerciado.
Então, para a coroa portuguesa, os comerciantes italianos ou os comerciantes judeus, de um modo geral, estabelecidos na Itália, não tiveram muita modificação, apenas deixaram de comercializar em Veneza para comercializar em Lisboa, apenas deixaram de comerciar em Genova para comerciar no Porto, mas na verdade, continuaram as atividades mercantis. Isso, durante todo o Século XVI e boa parte do Século XVII.
Ocorre que Dom João III, sendo um monarca de alta importância para a economia portuguesa, foi pessoalmente um homem tremendamente infeliz na sua estrutura particular. Morreram-lhe todos os filhos enquanto ele era rei, todos os filhos, toda a prole de Dom João III morreu enquanto ele estava no exercício do reinado português e, somente bem mais tarde, é que se abriu o processo da sucessão de maneira terrivelmente tempestuosa.
Morto Dom João III, o trono foi parar na mão de um neto meio visionário, meio fora dos esquemas mercantilistas, dos esquemas de exaustão comercial que se requeriam naquela oportunidade.
Dom Sebastião, ele entrou para o folclore, entrou para a lenda, entrou para tudo o que vocês queiram, não foi um rei no sentido mercantil, nos tempos vividos pelos grandes descobrimentos.
Vocês imaginem que naquela altura, ele ainda estava querendo reeditar uma cruzada, queria ir combater os mouros no norte da África, no melhor estilo do Século XII, do Século XI, quando os cristãos saíam para combater os hereges, saíam para combater os infiéis no norte da África.
Promove uma campanha contra o Moulay el-Malik em Alcácer Quibir. Ele é derrotado em 1580. É morto, Portugal fica acéfalo porque morre Dom Sebastião e não há previsão, dentro da estrutura genealógica da Casa Portuguesa, de quem substituiria aquele rei desastrado que levara Portugal à insolvência política.
É quando alguns pretendentes, sem maiores qualificações, tentam assumir o governo português, não chegam a um acordo e o Cardeal Dom Henrique, irmão de Dom João III, entrega Portugal a Felipe II, Rei da Espanha. Aí entramos na união das coroas ibéricas, Portugal e Espanha.
Aí, estamos então, com o Brasil sendo colônia espanhola. É preciso não perder de vista isso, é preciso não perder de vista de que de 1580 a 1640, nós fomos colônia da Espanha, Portugal era por sua vez uma dependência política da Espanha e tudo quanto falamos aqui da presença “holandesa”, se refere à relação entre os “holandeses” e o trono e a coroa espanhola.
Portanto, aí, vamos ver como é que isso se acontece.

Os “Holandeses”

Ora, nós falamos muito em holandeses, em invasão holandesa.
Não há no Século XVII nenhum país chamado Holanda, não há nenhum chão, nenhum local que mereça integralmente o nome político de “Holanda”.
Quem era o rei quando Holanda invade o Brasil?
Quem era o imperador da Holanda? Alguém sabe?
Não tinha.
Nós temos uma área que é a Holanda, que são os Países-Baixos, ocupada por cidades-estados, cidades que são auto-bastantes, auto-suficientes na sua estrutura, entre elas: Amsterdã, Roterdã, Leiden, várias delas.
Vamos falar de Amsterdã, que vem ao caso.
Uma grande maioria de comerciantes que estavam antes estabelecidos na península Itálica mudou-se para os Países-Baixos.
Por que isso foi feito?
Porque de todas as zonas da Europa, era aquela que oferecia maiores seguranças mercantis. Não era uma máquina pesada de estado, não era um trono altamente sofisticado, antes eram cidades leves do ponto de vista comercial. E os comerciantes procuraram aquelas organizações administrativas, das cidades livres, das cidades-estado, para nelas colocarem os seus interesses comerciais.
Ora, esses interesses comerciais ganham ali uma situação que vale a pena conversarmos um pouco sobre ela.
Hoje é muito normal, é muito comum, aqui deve ter pessoas que trabalham ou têm interesses ligados a sociedades anônimas.
Sociedade anônima é alguma coisa que nasce em função desse processo, nasce ali, nasce nos Países-Baixos, nasce na Holanda; a sociedade que não é composta de Joaquim, nem de Manuel, nem de Pedro, nem de Paulo, é composta de capitais, de ações negociáveis. Essa sociedade anônima é uma herança que nos vem dos bancos italianos, atravessa a Europa do sul para chegar aos Países-Baixos. Aí, nós temos a criação de uma sociedade anônima. E entre essas sociedades anônimas criadas nos Países-Baixos, duas merecem especial apreço e para nós, uma, a Companhia das Índias Orientais e a Companhia das Índias Ocidentais.
A Companhia das Índias Ocidentais é aquela que nos diz respeito.
Ela é criada graças ao espírito, graças à organização, graças ao texto de um homem chamado Usseliux. Usseliux é o cérebro, é o engenheiro que bola – vamos dizer assim – a existência das sociedades anônimas até hoje. A sociedade anônima atual, essa bem sofisticada que nós temos hoje, ela é filha daquele momento. Usseliux criou uma sociedade de capitais poloneses, italianos, franceses, não importa a nacionalidade do dinheiro. “Pecunia non olet”, como se dizia na época, “o dinheiro não tem cheiro”.
E então, reunindo capitais, ele funda uma empresa, uma empresa, não percamos de vista isso. 
Não é o estado nacional holandês, que não existia, que vai se contender com a Espanha, que vai invadir o Brasil, que vai tomar a Bahia, é uma empresa privada. É uma empresa privada da qual teve na sua folha de pagamento pessoas muito importantes, inclusive Maurício de Nassau, príncipe, é verdade, mas naquele momento que importava, empregado da Companhia das Índias Ocidentais.
É essa empresa que vai articular a tomada da Bahia.
Por que a Bahia é escolhida para ser o ponto de tomada de uma empresa de capitais ou sociedade anônima que se instala na Holanda?
Por uma razão muito simples, o açúcar era o grande negócio e o ponto estratégico da rota da Índia era outro grande negócio e ambos estavam na cidade do Salvador. Do mesmo modo que o porto da Bahia era o porto indispensável à rota da Índia, não se ia para o Oriente, a partir da Europa, nem se voltava do Oriente, sem o entreposto, sem a base, sem a sustentação, sem o apoio, sem o estaleiro, sem tudo quanto podia sustentar uma viagem na cidade do Salvador, ao mesmo tempo em que não era possível pensar o negócio do açúcar sem pensar nos engenhos do Recôncavo da Bahia de Todos os Santos.
Gabriel Soares, que é de época, um pouquinho anterior a essa, arrola os engenhos e nos dá a devida noção da importância da produção de açúcar baiano; brasileiro, baiano, para os negócios europeus.
Ora, aqueles comerciantes todos, estavam acostumados a uma ação meramente tributária, a pagar os impostos na península Itálica, ou a pagar os impostos em Portugal e com isso negociarem. A interferência do estado não se fazia nos negócios de açúcar até a entrada de Portugal para a colônia espanhola. Então, a estrutura tributária espanhola passou a funcionar em relação ao açúcar do mesmo modo que passou a trabalhar em relação ou que já antes trabalhava em relação ao ouro. Assim, reparem bem a diferença, o produtor de açúcar do Recôncavo, que transacionava diretamente com o importador, com o comprador particular europeu, passou a entregar o seu açúcar à coroa espanhola e esta é que ditava preços. Isso, em contrário a tudo quanto se pensou em fazer. Mais ou menos, como Iraque, os Estados Unidos interferem porque o negócio do petróleo passou a ser um negócio estatal no Iraque, o resto é tudo moldura prá enfeitar.
Pois bem, com essa estatização do negócio do açúcar em Portugal e Brasil, a Companhia das Índias Ocidentais transfere-se do interesse puramente mercantil para o interesse também militar. Isto é, tomar a cidade que significava a continuação do esquema privado, do esquema particular das negociações, da carreira da Índia e da produção interna de açúcar.
A Companhia das Índias Ocidentais passa a ser uma empresa militar para a conquista da Bahia.
Então, vamos ver como um incidente que nada tinha antes a ver, como a batalha de Alcácer-Quibir, acaba sendo fundamental para os interesses da colonização espanhola, para os interesses da Companhia das Índias Ocidentais.
Não era dali, não começava ali o interesse estrangeiro pelo Brasil, nós tivemos antes da presença “holandesa”, da presença da Companhia das Índias, aqui na Bahia uma série de ações de pirataria ocorrentes na cidade do Salvador, ocorrentes aqui.
Eu arrolei alguns nomes aqui que valeriam cada qual deles uma aula se fosse o caso. Cavendish, Withrington, Lancaster, Villegaignon, essa gente toda estava por aqui. Não era segredo prá ninguém que, casas mercantis européias, inglesas, francesas. Não é por acaso que Caramuru vai para França com Catarina, tudo isso se passava já dentro de um negócio particular de exploração; quando a Companhia das Índias Ocidentais cria a sua estrutura militar para fazer essa invasão. Invasão que não pretendia fundar um estado, não pretendia a conquista material da terra, pretendia tão somente repor o comércio na sua estrutura anterior, particular comerciando com particular, sem a interferência da coroa espanhola.
Essa esquadra “holandesa”, ela é organizada em Leiden e em Amsterdã. Investimentos altamente custosos, altos investimentos foram feitos pela Companhia das Índias Ocidentais através do seu Conselho dos Dezenove para a tomada da cidade do Salvador. Esta esquadra sai de lá para chegar aqui a 08 de abril de 1624. Toma a cidade sem muita briga, porque o sistema de fortificações de Salvador foi construído, todo ele, à base da Bahia de Todos os Santos. Reparem no Farol da Barra, até hoje, os canhões são voltados para dentro da baía, é para impedir que as forças, possivelmente estrangeiras, ingressassem na cidade atravessando a boca da Bahia de Todos os Santos.
Ora, isso aqui estava minado de comerciantes doidos que os “holandeses” ganhassem e então, informaram tudo direitinho; quando eles chegaram aqui, saltaram simplesmente.
Reparem a lógica, os canhões do Forte da barra, não daquele forte, é do forte que existia naquele local. Pelo amor de Deus, não é aquele imóvel que está ali, mas da fortificação que existia na Ponta do Padrão. Estavam todos voltados para dentro da baía, eles saltaram do lado de fora. Ao invés de saltar no Porto da Barra, saltaram do lado de cá. Então, o canhão está aqui, juntinho, mas não tem ação sobre o desembarque. E fazem literalmente um passeio, saem dali e vão tomar a cidade sem maiores resistências.
O governador, Diogo Mendonça Furtado, tentou uma resistência pessoal, resistência medieval, de espada em punho, etc., mas foi preso, com ele mais alguns, o superior dos jesuítas, o seu filho, algumas pessoas que estavam na casa do governador, no palácio do governador. É levado para Holanda, preso, de onde será libertado em 1626, já em outro contexto que não vem ao caso.
Os “holandeses” tomam a cidade e passam a pilhar o Recôncavo para obter exatamente o que interessava, isto é, a produção de açúcar ser remetida para Holanda diretamente e agora sem impostos, sem coisa nenhuma, remetida diretamente para Holanda sem que ocorresse a inserção tributária baiana.
É importante verificar como o negócio, o comércio, muito mais do que a conquista política, absolutamente mais do que a conquista política é que vai influir, é que vai influenciar, é que vai fazer com que se crie o processo da ocupação “holandesa” no Brasil, o processo da ocupação “holandesa” na Bahia.
Existe o livro de Gaspar Barléu, com preciosas ilustrações atribuídas a artistas holandeses, onde aparece “Incendium molarum”, um incêndio consumindo engenhos na Bahia de Todos os Santos, engenhos que se recusaram à imediata entrega a esses vitoriosos senhores.
Ora, essa tomada se faz com relativa, com total facilidade, mas a resistência também se elabora imediatamente.
Os jesuítas possuíam uma casa de retiro, onde está hoje o Arquivo Público, hoje é o solar da Quinta do Tanque, que era a casa de retiro dos jesuítas e o próprio bispo, Dom Marco Teixeira tinha ação sobre a vila de Abrantes, um pouco mais prá diante.
A cidade se retira, foge, quem podia fugir fugiu para a vila de Abrantes, fugiu para a casa do tanque dos jesuítas.
Há uma pilhagem na cidade, mas em compensação, a resistência começa a ser organizada, dirigida pelo bispo.
Correram na época boatos, isso está registrado por Damasceno Vieira, que o bispo fez isso por remorso. Ele que não acreditando na vinda dos “holandeses”, estava carreando o dinheiro destinado às fortificações para a construção de igrejas.
Se isso é verdade ou se isso é mentira, não vem ao caso.
Ele estava capitaneando a defesa, por isso é que ele é “O Bispo Soldado”, assim chamado. Quem for à igreja da Conceição da Praia, verifique que entrando na nave, do lado esquerdo, vai estar uma tela a óleo onde aparece Dom Marco Teixeira montado a cavalo, com as roupas de bispo e sobre elas umas insígnias militares.
O Bispo Soldado, Dom Marco Teixeira tenta a resistência. Não dá para expulsar os “holandeses”, mas cria casos de todos os tamanhos, casos de todas as ordens. E por outro lado, passado o pânico, os “holandeses” passam a não contar com a colaboração dos moradores. Isso vai assim até quando um certo Francisco Padilha mata nada mais, nada menos do que o próprio Johan Van Dorth que era o comandante das tropas desembarcadas. Mata numa luta de espadas ali, na Água de Meninos, onde está hoje o forte de Santo Alberto. Mata ali, embora haja uma placa – isso é um equivoco, espero um dia contar com o apoio de vocês para corrigir – aquela placa que está no Montserrat deveria estar na Água de Meninos. “Neste sitio foi morto Johan Van Dorth e tal”. Há um equivoco na colocação daquela placa, equivoco que de vez em quando pensam em sanar, mas que até agora não foi sanado.
Johan Van Dorth é morto e os “holandeses” perdem as razões e brigam porque começam a ser hostilizados, a não poder sair do centro da cidade, da cidade propriamente dita, porque Dom Marco Teixeira minou a cidade de guerrilhas ao ponto de tornar impossível a vida dos “holandeses” senão dentro da própria estrutura da cidade. Eles vão ficando aí, até que em 1625, já em abril de 1625, chega a Bahia a esquadra de resistência.

 Resistência externa

Essa esquadra de resistência merece uma referência porque na verdade são duas esquadras, uma esquadra espanhola, comandada por Dom Fadrique de Toledo Osório e uma esquadra portuguesa chamada “Jornada dos Vassalos”, que se reúnem sob um só comando para a cidade do Salvador.
Os navios todos vieram, eu tenho a relação nominal deles aqui, mas não me parece ficar aqui recitando nome de navio, não tem por quê.
Veio muitas vezes superior à possibilidade de resistência dos “holandeses” e eles terminam por se render. Rendem-se no melhor estilo de guerra, assinam um pacto no Convento do Carmo – não naquele convento do Carmo – no convento que ali existia e que foi destruído por um incêndio mais tarde. É bom deixar isso, porque o guia de turismo chega assim e diz “Aqui, nesta sala foi assinada a rendição dos “holandeses””. Não é bem assim.
Havia um convento ali.
A rendição foi assinada no melhor estilo das guerras.
Mas antes da rendição houve a derrota, a derrota propriamente dita e nessas lutas pela tomada da cidade há um fato que vale a pena ser mencionado, o dique.
O dique que ali está hoje e que não falta quem diga que é obra dos “holandeses”.
Ora, os “holandeses” nunca foram ao lado do dique, nunca viram o dique de perto, não têm nada a ver com o dique. Agora, fizeram um dique.
Reparem como a história mal estudada pode levar a confusões.
Onde está hoje a igreja de Santana, reparem que a ladeira de Santana é uma ladeira inteiramente artificial, porque tanto de um lado – estou falando para engenheiros e arquitetos – tanto do lado esquerdo quanto do lado direito da ladeira, o nível da rua permanece o mesmo da Baixa dos Sapateiros, da rua da Vala, não acompanha, é uma língua de terra que faz a ladeira de Santana e resulta do aterro de quando se fez o nivelamento do Campo da Pólvora.
Dali, daquela área até Praça dos Veteranos, até a Barroquinha a água foi represada, a água do rio das Tripas, porque entre os que atacavam a cidade do Salvador para tomá-la dos “holandeses”, estava o Conde de Bagnoli, Giovanni Vincenzo Sanfelice, ele se aquartelou, hostilizou a cidade a partir do que hoje é o largo da Palma, Quartel da 6ª Região Militar, Convento da Palma. Dali ele estava hostilizando a cidade com tiros.
Para evitar a invasão, os “holandeses” alagaram toda aquela região, fecharam o rio das Tripas, a vala da cidade, na altura da que é hoje a igreja de Santana, alagando toda a região até a Barroquinha. Esse que é o dique feito pelos “holandeses”, não é o Dique do Tororó, pelo amor de Deus, não misturem as coisas.
Então, aí estava a cidade tomada pelos “holandeses”.
Ora, meus amigos, foram onze meses de luta, em nenhum momento os “holandeses” tiveram paz aqui, nessa cidade. Onze meses, onze meses de rebelião interna, Dom Marco Teixeira, Dom Fadrique de Toledo Osório, todo mundo a querer botar “holandês” prá fora, onze meses de resistência.
A que horas os “holandeses” iriam fazer o Dique do Tororó?
Você chega numa construção mais velha e o zelador diz assim: “Isso aqui não vai cair nunca, foi feito pelos “holandeses”.
Nunca ouviram essa expressão?
“Holandês” fez em Recife, aí já é outra conversa, é outra história. “Holandês”, na Bahia não tem uma pedra em cima da outra, não tem um tijolo em cima do outro, não tem nada, nada nesse mundo feito por “holandês”, nem o forte lá, de Itaparica, que começou a ser feito por Schouten prosseguiu, o resto é tudo invencionismo, é tudo boa-vontade é tudo querer.
Mas, estava a cidade tomada pelos espanhóis de Dom Fradique de Toledo Osório com a Jornada dos Vassalos, dos portugueses.
Esta é a primeira invasão “holandesa”.

Segunda Invasão

Há uma segunda invasão, esta segunda invasão, eu não diria que é curiosa, mas é de boa inventiva.
Maurício de Nassau, príncipe, com a família toda casada no reino da Dinamarca, com gente que era “estatuter” da Finlândia, a Escandinávia estava cheia de Nassaus e ele, príncipe, aqui na Bahia, se sentindo meio desterrado.
Tenta uma jogada de fazer com que ele se visse vitorioso e capaz de sensibilizar as estruturas governantes européias, quem sabe, para arrumar uma vaga prá ele.
Tenta invadir a cidade do Salvador em 1638 e faz uma estratégia da maior importância. Naquele tempo, a Bahia de Todos os Santos já era conhecida, palmilhada, já não tinha mais nenhum segredo a Bahia de Todos os Santos.
A bala do canhão, na época era um petardo, era uma esfera de ferro e valia como uma macro pedrada, já disse isso aqui, no casco do navio, arrombando o casco prá o navio fazer água e afundar.
Ele calculou cuidadosamente o alcance de um petardo daqueles, verificou a profundidade da Bahia de Todos os Santos e entrou galhardamente pela baía com seu navio, exatamente pelo meio; ou seja, os fortes eram inócuos com relação aos navios e como ninguém queria saltar aqui, ele escolheu para saltar o que é hoje o arrabalde ferroviário de Nossa Senhora da Escada, depois de Itacaranha, por ali. Porque ali já não tinha fortes, saltava ali e atacaria a cidade do Salvador pelo fundo, vamos dizer assim.
Tentou e fez isso, mas foi rechaçado, foi derrotado nas alturas de Montserrat até o forte de Santo Antônio. Luís Barbalho Bezerra, cujo nome ficou na sesmaria do Barbalho, Luís Barbalho Bezerra conseguiu deter a segunda invasão “holandesa”.
São essas as duas invasões que a cidade do Salvador sofreu durante o período da morte de Dom Sebastião até a restauração portuguesa em 1640. Com a restauração portuguesa, foram entendidos tratados de paz e os “holandeses” se retiraram pacificamente e não aconteceu nada. Então, na cidade do Salvador, o que acontece com os “holandeses” é exatamente isto. É preciso não confundir com o que aconteceu em Recife. Lá houve um governo realmente “holandês”, durante doze anos Nassau esteve lá governando a área, construindo, fazendo coisas, trazendo pintores, Franz Post veio prá lá; vários vieram para lá trabalhar, fazer obras de arte. A arquitetura, Recife ficou com profundas marcas holandesas, a Bahia não ficou, a não ser a marca do heroísmo daqueles que botaram os “holandeses” daqui para fora.

Lendas “Holandesas

Eu poderia alongar esta conversa lendo aqui prá vocês, relações de navios, relações de pessoas, relações de gente que esteve envolvida com a e também com os...
De vez em quando fica na moda descobrir tesouros submersos na Bahia de Todos os Santos. Não há cemitério náutico maior que eu tenha notícia do que a Bahia de Todos os Santos; são várias as razões que levaram a isto, o fato de ser entreposto da Índia, navio que já chegava aqui arrebentado e que daqui não saia mais e era afundado aqui mesmo. Mas há um navio que está ainda aí, desafiando o fôlego e a ambição das pessoas, que é o “Hollandia”, o “Hollandia” foi o navio escolhido para levar o saque das pratas das igrejas, do ouro das igrejas para Holanda e foi afundado ali, perto do Unhão e está lá até hoje, esperando que algum mergulhador mais ousado resolva achar o que lá está e catar prá fazer sua feria. O “Hollandia” está lá esperando por tudo isso e ao lado dele, vários outros navios que por aqui chegaram.
Meus amigos; em essência, está é a presença “holandesa” na Bahia, a presença da bravura do bispo, a presença da bravura de Dom Fradique de Toledo Osório e sua tropa. Agora, gostaria de lembrar aqui que esses “holandeses” que aqui vieram não deixaram maiores marcas. Eu digo isso porque quando se vê um meninozinho loiro, diz assim: “Ah, ele é descendente dos holandeses”.
Nunca ouviram dizer isso, não?
Os holandeses não fizeram outra coisa senão meninos novos e loiros aqui. É muito comum se dizer isso, é muito comum, sobretudo em Sergipe, aí, no litoral norte. Nasceu loirinho... Ou você nunca ouviu dizer isso?
Nasceu loirinho, é descendente de holandês.
Não há essa história, isso tudo é uma lenda que não consegue, que não progride, é uma história curiosa e dá um esbregue em Deus. Os holandeses são ímpios, são hereges. Olha prá imagem do Crucificado e diz, se você não quer tomar conta de você mesmo, não tome, mas tome conta de sua mãe, porque as imagens de Nossa Senhora serão também conspurcadas, serão destruídas. Que espécie de filho é você?
Ele encosta Deus na parede prá Deus proteger a cidade. O Sermão pelo Bom Sucesso é um texto que eu acho que deveria ser lido por todos, para que possam ter uma idéia até onde chegou a eloqüência oratória do Padre Antônio Vieira, que teve o seu colégio, aliás, depredado por esses “holandeses” quando chegaram até aqui.
Os tratados de paz de Dom João IV, esses são pagos por Portugal com açúcar brasileiro e os “holandeses” se retiram e os “holandeses” vão embora.
Meus amigos, a falada invasão “holandesa” na Bahia, há que não falar, há que dizer isso que eu disse aqui, porque fora daí, o que existe é a mentira.
Eu não conheço episodio da história do Brasil mais enfeitado do que esse.
Há um morro do Conselho no Rio Vermelho porque os brasileiros se reuniram em conselho para ali deliberar.
Ora, o morro do Conselho se chama do Conselho porque era do Conselho Municipal, só por isso, não tem nada a ver com conselho reunido para deliberar sobre “holandeses” ali.


Edição por José Spinola





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