
Igrejas da Bahia
Igrejas da Bahia
Século XVI.
Nós não temos no Século XVI, na Bahia, nenhuma grande igreja no sentido material, no sentido visual, da atração que ela possa exercer. Temos, graças a Deus, graças aos padroeiros dessas igrejas, a sobrevivência de alguns poucos templos.
Nós sabemos que Nóbrega, quando chegou aqui, encontrou uma maneira de igreja, como ele define; uma capela de taipa, coberta de sape, na qual estava uma imagem de Nossa Senhora da Graça. Dessa não existe nem vestígio, nem rasto. Ficava no que é hoje a Ladeira da Barra.
Sabe onde é a casa que foi do Dr. Clemente Mariani?
Quem desce a Ladeira da Barra, do lado esquerdo, um morro, lá em cima estava a maneira de igreja. Não era uma igreja, faltavam a ela todas as condições que o Conselho de Trento estabelecia para capela, ermida, igreja, caracterizando cada qual.
Daí em diante, nós temos algumas que sobrevivem até hoje. Três capelas baianas são do século XVI, três capelas, somente três capelas que são do século XVI e merecem da nossa parte todo o respeito. As outras que existiram, de taipa, mal feitas pelas circunstancias da época, desapareceram. A Sé de cal e pedra desapareceu quanto mais a Sé de palha, a igreja de Nossa Senhora da Graça; a primitiva igreja da Conceição da Praia, que essa é a quarta igreja, desapareceram.
Ficaram na Bahia, a capela de Nossa Senhora da Escada, a capela de Nossa Senhora das Neves, na Ilha de Maré e a capela de Nossa Senhora de Montserrat, lá, onde ela está; essas três são do século XVI.
Reparem que tem alguma coisa de próximo, copiar.
Sabe o que é copiar? Aquela varanda que tem na porta da igreja.
Tem isso lá, em Montserrat, tem isso em Nossa Senhora da Escada.
De todas, a referencia mais antiga que nós dispomos é de Nossa Senhora das Neves, da Ilha de Maré, que é de 1552. Bartolomeu Pires, que era senhor de engenho na Ilha de Maré e que era mestre da capela da Sé, fez a capela e – o que não falta aqui é arquiteto e engenheiro – até hoje ela está de pé por um artifício de arquitetura feito na cobertura, ela não tem telhado, ela tem uma abobada e as telhas cravadas no extradorso da abobada, o que faz com que não haja o que apodrecer, até hoje ela está lá tal como foi construída, tal como foi inaugurada em 1552. É a mais antiga de que nós dispomos.
Em 1566 fez-se a capela de Nossa Senhora da Escada, ela hoje está, infelizmente, quem sabe, uma campanha do CREA ou de quem couber, da Prodasal, da Fundação Gregório de Matos prá dar um tratamento melhor á capela de Nossa Senhora da Escada. A capela de Nossa Senhora da Escada tem umas importâncias que ninguém se dá conta delas.
Ela foi o primeiro ponto. Reparem o que vou dizer.
Ela foi o primeiro local ao sul da linha do Equador em todo o mundo, onde se exercitou o direito de extraterritorialidade. Direito de extraterritorialidade que, como sabem os senhores, é usado hoje por alguns ditadores quando as coisas começam a empenar, que eles vão ser depostos, eles correm e se recolhem em uma embaixada estrangeira e ficam lá até que seja possível se retirar com segurança, a isso se chama a extraterritorialidade do território estrangeiro.
Ora, a capela de Nossa Senhora da Escada foi invocada como território da Santa Sé e não como território nacional e Sebastião da Ponte, acusado de ter ferrado um homem com ferro de gado, recolheu-se ali e durante três anos não saiu da igreja, levavam para ele suprimentos e ele se alimentava e morou na igreja durante três anos.
A capela de Nossa Senhora da Escada é assim o primeiro exemplo de asilo político que se dá a alguém em todo o mundo abaixo da linha do Equador. Esta capela está lá, na Escada, acho que todo mundo sabe aqui onde é a Escada. Não sabem, não?
Lobato, Plataforma, Itacaranha, Escada. É um lugarejo ao longo da linha férrea que hoje está inteiramente ocupado por invasões e a igreja, coitada, com essa importância toda, está fechada de invasões ao redor, além do mais, foi ali que saltou Maurício de Nassau na segunda invasão de 1630. É um local da mais alta importância histórica.
Eu faria um apelo, não sei a quem devo me dirigir, no sentido de aquela capela ganhe o relevo, a importância, o caráter que a sua historicidade nos permite.
E a capela do Montserrat? A capela do Montserrat tem duas etapas; tem uma etapa do século XVI, ela foi construída por Garcia D’Ávila, que antes de receber as terras de lá, do Açu da Torre, recebeu terras em Montserrat, depois permutou com São Bento e entregou a capela de Nossa Senhora de Montserrat aos monges beneditinos, só a capela. Mais tarde construiu-se o que se chama de “o mosteirinho”, é o hospício que é anexo à capela, mas a capela está lá ainda, perfeitamente no seu local.
Essas são três capelas baianas do século XVI, todas as três credoras do nosso mais alto respeito,
Ainda do século XVI, já desaparecida, a capela dos jesuítas, no mesmo sitio onde está hoje a antiga faculdade de medicina e a catedral, mas ali construíram os jesuítas a sua primeira igreja, naquele local.
Depois vale a pena considerar o Convento do Carmo, não aquele convento, o primitivo convento foi todo destruído por um incêndio; mas um convento feito em 1580. Mais tarde, o mesmo convento do Carmo ampliou com uma ermida em 1592.
Rapidamente, assim se fazem as igrejas do século XVI, nenhuma grande construção, nenhum grande investimento na construção das igrejas.
Nós vamos agora para o século XVII, a primeira metade do século XVII. De 1600 a 1650, nós temos uma quantidade apreciável de investimentos imobiliários na construção de igrejas baianas. Nós temos os jesuítas comprando material para a atual igreja, a atual igreja jesuítica comprava aquelas pedras, vieram de Portugal já talhadas, já prontas para aplicar aqui, em 1604. Depois a Conceição da Praia é elevada a matriz, ainda não aquela, a terceira igreja que lá estava.
Depois, a Ordem Terceira do Carmo é instituída e começa, somente começa, a construção da sua terceira igreja.
A igreja da Graça começa a construção atual; é preciso, essa coisa da igreja da Graça é bom demorar um pouquinho falando. Em geral se diz, a mais antiga igreja da Bahia é a igreja da Graça. Não é.
A mais antiga igreja da Bahia é a igreja de Nossa Senhora das Neves, da Ilha de Maré, seguida da Igreja de Nossa Senhora da Escada, seguida da igreja de Nossa Senhora de Montserrat.
A devoção a Nossa Senhora da Graça é a mais antiga, mas a igreja não, a igreja é de 1645, aquela igreja que vocês conhecem hoje de Nossa Senhora da Graça. Não é a igreja de Catarina, o túmulo de Catarina está lá, mas a igreja não é a que Catarina viu. Não é a mais antiga igreja, o mais antigo imóvel – eu estou falando no CREA – é uma igreja do século XVII.
A igreja do Loreto.
Quem sabe aqui onde é Loreto? É Ilha dos Frades. Lá está.
E o início das obras do hospital da Misericórdia. O hospital da Misericórdia começa como hospital, depois é que se faz a igreja na frente; aquela construção no fundo da igreja da Misericórdia, que ainda está lá, este é que é o hospital da cidade.
Na segunda metade do século XVII, já aí o açúcar começa a dar dinheiro, começa a haver uma coisa que a Bahia não tinha, homens ricos, homens ricos que começam a investir nas suas próprias casas – reparem que eu só estou falando de igrejas, não estou falando de solares, não estou falando de nada mais do que das igrejas – e começam a investir na construção de igrejas.
De 1651 é o andamento das obras da capela-mor do Convento do Carmo. Cristóvão de Aguiar Daltro, rico homem de engenho, faz a doação.
A Misericórdia, reunindo todos os comerciantes da cidade, faz a construção da sua atual igreja e do seu primitivo hospital.
O convento do Carmo retoma as obras. Os jesuítas começam o atual colégio, que é a faculdade de medicina.
A Misericórdia faz a torre da sua igreja. O Desterro obtém Licença Real para a construção.
Santa Tereza funda a irmandade. Santa Tereza inicia as obras; São Bento inicia as obras e por aí, vocês vêem que São Bento, Santa Tereza já existe dinheiro, já existe devoção e dinheiro bastante para fazer com que as igrejas ganhem a dimensão que alcançaram a partir daí.
No caso particular do Desterro. Eu quero falar do Desterro de maneira muito específica.
O Desterro é de 1665, Licença Real para construir o convento. Em 1677 já existia a igreja e seis celas para as freiras.
Reparem que em onze anos foram feitas seis, é preciso considerar que nós estamos na colônia, mão-de-obra escassa, engenheiros escassíssimos, mestre de obras escassos, dinheiro não muito abundante. Então, onze anos entre uma coisa e outra, não chega a ser um prazo de metrô, não; pode ser mais avaliado de maneira menos trágica.
Então, em 1679 o Senado da Câmara ajuda à construção de mais dez celas. Apavorado com o comportamento moral da cidade, promove o acréscimo de freiras e faz a construção de mais dez celas.
Em 1683 constroem-se os dois dormitórios. Em 1695 ocupa-se com a igreja fazendo o retábulo e as tribunas.
Portanto, aí está o século XVII no Convento do Desterro.
Mas iniciam-se as obras do Mosteiro de São Bento. Os beneditinos estavam aqui desde o século XVI, com uma capela de taipa, que vocês observem, eram anti-jesuiticas.
Não sei se aqui tem alguém que freqüente a igreja de São Bento, não sei se aqui alguém conhece a igreja de São Bento, cuidadosamente. A igreja de São Bento, o convento é beneditino, a igreja é de São Bento. No altar mor a figura central é São Sebastião, nunca foi beneditino nem tem nada com isso, é São Sebastião que está lá, todo cravejado de setas e não tem nada a ver com São Bento. É uma homenagem que os beneditinos prestam aos jesuítas, porque lá estava uma capela de taipa, capela precária consagrada a São Sebastião. Quando eles fizeram a igreja, que receberam a capela de taipa dos jesuítas e transformaram no seu mosteiro, homenagearam os doadores mantendo a imagem de São Sebastião na capela-mor, no altar mor.
Começam então as obras que marcam a alegria dos turistas e dos historiadores. Começa a se fazer as grandes obras de igrejas na Bahia, a sacristia da Misericórdia.
Alguém conhece a sacristia da Misericórdia, aqui?
Soleira da porta, da soleira em diante, o arcaz, o arcaz da Misericórdia por si, a arca onde se guardam os paramentos, só por si, vale a arte sacra baiana.
O piso de pedra lioz, tudo isso se faz na segunda metade do século XVII. E começa-se então aí uma igreja curiosíssima para os meus amigos da engenharia e da arquitetura.
A igreja do Rosário dos Pretos. Esta igreja tem uma vida tumultuada porque quando os escravos e ex-escravos baianos resolveram fazer uma igreja para Nossa Senhora do Rosário, aconteceu uma coisa curiosíssima, a arquidiocese negou que o dinheiro fosse guardado por escravos e ex-escravos; o tesoureiro devia ser branco. O dinheiro podia ser negro, mas o tesoureiro, a fiscalização dos gastos tinha que ser branco. Isso é talvez a mais violenta forma de preconceito já ocorrida na Bahia, no Brasil.
Os homens que eram donos do seu dinheiro não administraram seu dinheiro, eles obtinham o dinheiro, entregue a um tesoureiro branco indicado pela diocese, para que este fizesse os gastos da igreja do Rosário dos Pretos.
Fez-se a igreja do Rosário dos Pretos, a construção tem início em 1664 e prossegue as igrejas com o início do atual convento de São Francisco, a inauguração do Convento de Santa Tereza, esse foi mais rápido, porque os frades terezes chegaram da Itália cheios de dinheiro, fizeram o convento e foram morar dentro, não houve recolhimento de esmola, não houve nada disso. E finalmente, o claustro da Misericórdia, que é uma das belezas baianas.
Vocês, que são engenheiros, observem que os arcos plenos do claustro da Misericórdia têm o mesmo módulo dos arcos plenos do claustro de Santa Tereza e têm os mesmos módulos dos arcos plenos da Câmara de Vereadores. Observem isso.
O mesmo arquiteto, Frei Macário de São João, construiu os três locais, a sacristia da Misericórdia, o claustro de Santa Tereza e a fachada da Câmara de Vereadores. E usou os mesmos parâmetros, os mesmos módulos, o mesmo risco. Isso dá prá vocês, que são da área técnica, se divertirem à vontade e ver que não era muito abundante o projeto, era abundante aqui a mão-de-obra para fazer, o projeto, na maioria dos casos, vinha pronto de Portugal. Tiravam-se várias cópias. Para que vocês tenham uma idéia, a igreja do Menino Deus de Macau, lá, na China, é igual à Catedral Basílica de Salvador, tirou-se mais uma cópia do rolo de plantas, mandou-se um prá lá e mandou-se um prá cá, fez-se uma lá e outra aqui. Isso é uma prova da presença portuguesa na colônia, tanto aqui quanto lá, mantendo a unidade cultural de Portugal na colônia.
Prosseguem as coisas assim. No Século XVIII, aí, o dinheiro começa a correr frouxo, o negócio do açúcar fica fantástico, ganha-se dinheiro na Bahia. A Bahia foi primeiro mundo e não sabia. Tanto que para efeitos didáticos, eu até agora estava falando no século XVI, primeira e segunda metade do século XVII; no século XVIII, para dar um caráter mais didático, para que as pessoas apreciem melhor essa quantidade de dinheiro investido aqui, vamos considerar a divisão de dez em dez anos.
De 1702 a 1710 fez-se na Bahia a pedra fundamental da segunda igreja de São Francisco, inaugurou-se a Ordem Terceira de São Francisco com aquela bela fachada que o mestre Gabriel Ribeiro esculpiu, vocês conhecem, é de 1702; fez-se a escadaria de mármore, que está lá até hoje, da Santa Casa da Misericórdia, que leva do claustro até o salão nobre. Essas coisas valem à pena falar e ir lá ver. Acredito que a grande maioria aqui conhece, mas é bom ir lá ver. Não ver com esse rebanho de turistas com um sujeito na frente falando alto, não. Ir ver devagar, ir ver olhando, ir ver vendo.
A fundação do Noviciado de São Joaquim, que é hoje o colégio de órfãos, que é a maior área construída da Bahia até hoje, salvo o estádio da Fonte Nova, claro, mas não é área construída porque tem um campo de futebol no meio. A maior área construída ainda é, hoje, agora, no ano 2005, o Colégio dos Órfãos de São Joaquim.
Põe-se a pedra fundamental da atual igreja de São Francisco; a primeira pedra da Ordem Terceira do Carmo.
Reparem que com um ano de diferença, 1708 e 1709, põe-se a pedra fundamental na Ordem Terceira de São Francisco e na Ordem Terceira do Carmo. O que dá margem a vocês notarem como tinha dinheiro para pagar isto. É preciso considerar que não é o poder público quem paga coisa nenhuma, esse é o senhor de engenho que acredita na salvação da própria alma e que vai prá lá e faz isso.
Constrói-se a igreja Boa Viagem, uma construção pequena; e termina-se a capela-mor da Ordem Terceira do Carmo.
Ora, lançar a pedra fundamental de duas ordens terceiras na Bahia. Não tem rico na Bahia hoje, não; não tem, não. Tem os que pensam que são ricos e eu, que sou pobretão ainda penso mais do que eles.
Mas se você comparar Antônio Caldeira Pimentel, Cristóvão de Aguiar Daltro, Francisco Dias D’Ávila, os grandes doadores dessas construções; vocês têm uma idéia do que significava ser rico na Bahia do século XVII, século XVIII. Era ser rico de primeiríssimo mundíssimo. Não era esse dinheirinho baiano que fica por aqui agora, não; nenhum rico baiano chega perto de Cristóvão de Aguiar Daltro, nenhum. Feitas todas as correções que você quiser.
Mas vamos voltar, de dez em dez anos, de 1710 a 1720, reparem o que se faz na Bahia.
Primeiro hospício da Boa Viagem, reparem que na Boa Viagem, assim como no Montserrat existe a igreja e o hospício. Hospício não tem nada com maluco, não; hospício é de hospedaria, hospício é hospedagem. A igreja e o hospício.
Funda-se a capela do Corpo Santo, que ninguém mais enxerga hoje, ela foi cortada para a passagem da rua Portugal, hoje tem uma vidraçaria na parte de baixo, mas está lá até hoje.
Consagra-se a igreja de São Francisco; termina-se a igreja da Boa Viagem; faz-se a capela-mor da Ordem Terceira do Carmo; cria-se a irmandade do Pilar; começa a funcionar a igreja do Rosário dos Pretos, instala-se a freguesia de Nossa Senhora de Brotas. Isso em dez anos.
Eu não sei medir o fluxo de trabalho profissional de engenharia e de arquitetura, mas considerando a tecnologia disponível, é fácil se raciocinar aqui da quantidade de mão-de-obra empregada, não esqueçam que não havia equipamento mecânico, o tijolo era levado um a um para ser assentado; a corda era puxada a braço; não havia balança, não havia elevador, não havia concreto mexido em central prá levar; não havia laje batida, não havia nada, era tudo mão-de-obra imediata. Isso é muito bom que se diga no CREA para dar uma notícia do que significou em termos de investimento, de mão-de-obra esse período de dez anos, de 1710 a 1720.
De 1720 a 1730, não muda não. A Barroquinha começa sua construção; São Francisco termina as obras da igreja; a Saúde põe a primeira pedra; a Mouraria põe a primeira pedra, a igreja de Santo Antônio da Mouraria que está lá até hoje. Visconde de Sabugosa com uma placa lá dizendo isso.
São Joaquim prossegue na obra, a Saúde apronta a capela-mor, São Miguel inicia as obras, a Mouraria inaugura, o Boqueirão começa as suas obras, São Domingos, têm início as obras.
São Domingos é um caso curiosíssimo de importância, de prestígio.
Vocês sabem que existe ordem primeira, ordem segunda e ordem terceira.
O que é ordem primeira? É a ordem os frades.
Ordem de São Francisco, os franciscanos constituem a ordem primeira de São Francisco.
O que é ordem segunda? A ordem das freiras.
As freiras do Desterro, as freiras da Lapa. Ainda tem freiras na Lapa, tem poucas, mas tem. Se constituem na ordem segunda.
Ordem terceira é a ordem de leigos.
Para que exista uma ordem terceira é preciso que haja uma ordem primeira, sem o que não tem frade prá subsidiar.
A importância do comércio do açúcar da Bahia era tão grande que criou-se uma ordem terceira de São Domingos na Bahia, com a ordem primeira em Portugal, em Lisboa. A ordem primeira de São Domingos é em Lisboa e a ordem terceira é em Salvador, na Bahia.
Isso dá, para os olhos de hoje talvez menos, mas considerando as circunstâncias da época, dá inteira importância ao que significava ser um comerciante na Bahia. E a ordem terceira de São Domingos foi assim até a independência.
Para vocês terem uma idéia, o Senhor do Bonfim, quando o general Labatut retirou de lá, da igreja do Bonfim, porque achou que estava protegendo muito os brasileiros, recolheu a imagem na igreja de São Domingos que era a imagem dos comerciantes portugueses por excelência.
E reparem que além das grandes construções de São Francisco, começam a surgir igrejas menores, mas nem por isso menos providas de obras de arte. São: a Saúde, a Mouraria – São Joaquim não chega a isso -, a Barroquinha. A igreja da Barroquinha, bela igreja que um incêndio destruiu, um incêndio misteriosíssimo, destruiu recentemente, recentemente, há vinte anos e não há notícia até hoje de que tenha sido recuperada ou, de vez em quando ameaçam recuperar, mas não saem da ameaça da recuperação.
Na terceira década, de 1720 a 1730, continua, São Joaquim, Saúde, São Miguel, Mouraria, Boqueirão, São Domingos. E essas mesmas igrejas mais outras prosseguem São Francisco, São Miguel,Perdões e Lapa.
Lapa, eu quero demorar um pouquinho.
Um homem, um indivíduo, João de Miranda, com quatro filhas solteiras, resolveu sem perguntar a elas, naturalmente, que elas iam ser freiras e fez o convento para elas. Aquele convento da Lapa, que você vê daquele tamanho ali, é o pagamento de um homem que construiu para recolher as suas filhas. Naturalmente aberto a outras filhas de outros senhores, mas aquele convento que está ali, na Lapa, é o resultado da fortuna particular de um homem.
Eu chamo a atenção disso porque vocês, quando fazem os seus orçamentos aí, para contratantes.
Aqui tem gente que faz orçamentos, não tem?
Um homem fez o convento da Lapa com o dinheiro dele, pagou.
Isso para dar uma idéia da importância financeira da Bahia no século XVI, no século XVII, no século XVIII.
Este convento da Lapa que foi construído para o recolhimento das arrependidas, tem uma situação curiosíssima, que exprime o sentido do pátrio poder.
Alguém já olhou as janelas de cima?
Se passar amanhã, observem, são grades de prisão, grades de ferro, grades de cadeia. E uma mulher que era recolhida no convento da Lapa, não sairia jamais. Está lá até hoje.
Não ria, não, porque era triste.
Estão lá até hoje, no segundo e no terceiro pavimento, grades de ferro impedindo qualquer tipo de comunicação com o exterior.
Assim foi que as filhas de João de Miranda foram recolhidas e as filhas dos outros que lá quiseram colocar.
A licença da construção do convento já é do século XVIII, da quarta década, de 1733, quando também se começa a igreja da Santíssima Trindade. Essa igreja, que está na Água de Meninos – acho que o pessoal aqui não olha muito prás igrejas, não. Sabem onde é a igreja da Santíssima Trindade, não?
No alto. Um pouquinho antes da subida da Água Brusca. Igreja da Santíssima Trindade dos Cativos, mas não são os cativos escravos baianos, não, cativos de Jerusalém, cativos das Cruzadas, a devoção é bem mais antiga do que escravos na Bahia.
A autorização do convento da Lapa chega depois do início da construção, ele tinha tanta confiança em si próprio, que começou antes a construção, em 1735.
Aí, começa a construção da igreja do Passo, a capela de São Lazaro e a capela da Soledade. Capela da Soledade que depois vai crescer no convento.
O padre Gabriel Malagrida é quem constrói a capela da Soledade.
Mas, outras obras antigas, começadas antes, como me referi aqui, prosseguiam, porque quando digo no ano tal, o que começou no ano passado, no ano retrasado, prossegue o seu trabalho, é claro. Então, é desse mesmo ano a chegada aqui dos azulejos do claustro do convento de São Francisco.
Nós tínhamos uma mão-de-obra especializadíssima que era a do assentamento dos azulejos. Todo mundo aqui conhece, se não conhece, vá amanhã, consagre a manhã de São João para ver os azulejos do claustro do convento de São Francisco. Ninguém pode entrar no CREA sem ter passeado por ali.
E chegam as primeiras pedras da igreja da Conceição da Praia, daquela que vocês conhecem 1739. Vale a pena parar um pouquinho aqui.
Não esqueçam que toda a igreja da Conceição da Praia é uma figura de armar, toda ela veio pronta de Portugal, as pedras talhadas. O mestre Gabriel Saldanha aqui só teve o trabalho – teve muito trabalho, é claro – mas de armar as peças que já vinham talhadas. É tanto que o navio naufragou e ele simplesmente mandou dizer: perderam-se as pedras A4, B17, a indicação da pedra. Talharam outra vez outra pedra lá e mandaram para cá e não se falou mais nisso.
Toda a igreja da Conceição da Praia não foi construída aqui, ela foi armada aqui. Eu acho que vocês, que são da arquitetura, devem um respeito imenso ao mestre Gabriel Saldanha que fez isso aqui, na Bahia. É bom ir lá ver.
Não é preciso que a gente não tenha muito orgulho, a nossa capacidade tecnológica é uma coisa, mas a capacidade individual é a mesma, o indivíduo é burro e não é burro, tanto faz ser em mil setecentos e tanto como em dois mil e tanto.
Agora, dispor de equipamento para levar as pedras da torre da Conceição da Praia até em cima, encaixar direitinho na que estava lá, aí supõe realmente uma competência que eu acho que os senhores arquitetos, os senhores engenheiros devem tomar a bênção a quem foi capaz de fazer isso.
Inaugura-se o convento da Lapa em 1744, não houve paralisação da obra. Há obras que levam vinte ou trinta anos, o convento da Lapa levou doze anos para ser feito e foi terminado sem problema nenhum. O homem tinha dinheiro e pagou.
Em 1748, encerra-se essa década com a inauguração da igreja dos Aflitos, depois a Lapa, já com todo o seu trabalho se realizando já, na rotina.
Começa então em 1753 uma igreja que merece o nosso respeito, a igreja do Santíssimo Sacramento de Santana, essa igreja foi construída por um mestre de obras chamado Felipe de Oliveira Mendes, que fez para morar, uma casa com soluções arquitetônicas curiosíssimas. Ainda hoje, eu aconselharia um projetista, um arquiteto dar um passeio na casa de Felipe de Oliveira Mendes para ver como é que ele tirou partido da encosta em que construiu a sua casa. É aquela casa que hoje é a Casa de Angola, na Praça dos Veteranos.
Defronte do quartel de bombeiros, exatamente. Ali era a casa de Felipe de Oliveira Mendes, do mestre de obras que construiu a igreja de Santana, ele fez para si, utilizando um terreno que hoje, hoje a tecnologia faz o desmonte, faz a murada de concreto ciclópico, não sei o que; antes não tinha nada disso. Ele fez com a sua tecnologia e vale a pena ir lá ver como é que ele fez a casa dele.
A igreja de Santana, que não teve aquele aspecto que tem hoje, aspecto urbanístico, porque ela era em cima, a pique da vala da cidade. Mais tarde, quando se aplainou o Campo da Pólvora, o excesso da terra do montículo que havia lá, no Campo da Pólvora, foi levado para fazer a igreja de Santana. Vocês observem que tanto de um lado quanto do outro da ladeira de Santana, hoje, tanto de um lado quanto do outro, o terreno segue o grade da Baixa dos Sapateiros, ele não acompanha a ladeira, a ladeira está solta entre um e outro plano e resultante do aterro feito com o Campo da Pólvora. Tanto que chamou-se ali de rua do Carro pelo trole que levou a terra toda para se fazer a ladeira de Santana onde ela está até hoje. Ela tem a vantagem, tem a peculiaridade de ter sido feita com relativa rapidez de modo que não há nenhuma discrepância de estilo, em termos de unidade estilística, a igreja de Santana será, talvez, hoje, talvez não, é a igreja mais uniforme, mais homogênea que nós dispomos.
A de São Francisco, não; a de São Francisco é uma – com todo respeito pela beleza – é uma salada de estilos, vai do barroco ao neoclássico de estalo. Porque levava tanto tempo prá ser construída e no tempo que levava, os estilos mudavam, as preferências se alteravam. Então, vocês reparem que mudava.
São Francisco inclusive tem uma peculiaridade. Reparem os arquitetos aqui presentes, que ela é deshomogêneos em relação a outras igrejas no que respeita à relação comprimento largura. O comprimento da nave é muito menor do que das outras igrejas em relação à largura. Não sei se notaram isso.
A nave da igreja de São Francisco é praticamente um quadrilátero, não é o paralelogramo que são as outras igrejas neoclássicas, porque quando a igreja já estava em andamento da construção, houve uma querela judicial que impediu que a igreja prosseguisse até onde está hoje o Cruzeiro de São Francisco; tanto que depois, em memória das alterações colocou-se ali aquele cruzeiro de pedra que está no largo de São Francisco.
Eu sei que estou sendo enumerativo, não precisa que ninguém me diga, não. Mas estou sendo de propósito, eu estou falando no CREA para gente que está querendo construir ou construindo ou vai construir.
O fim da primeira metade do século XVIII é um fim de embelezamentos. A talha dourada do Desterro é toda colocada nessa altura; a talha dourada da Catedral, que terminou-se a obra de pedra, mas a Catedral ficou algum tempo ainda sem os ornatos. Aquele selo da Companhia de Jesus que está no forro, foi colocado ali exatamente em 1759, já na beira da saída dos jesuítas, na hora praticamente da expulsão.
Então, prosseguem as obras.
Vamos ver agora a década de 1760.
São Joaquim termina a obra, a Penha começa; terminava um, começava outro, no mesmo ano.
A Penha começa, pinta-se a nave da Saúde, reconstrói-se a igreja da Graça, aprontam-se as duas torres do Bonfim e fazem-se os altares laterais e o altar-mor atuais da igreja da Conceição da Praia.
Eu chamo a atenção porque em dez anos se mobiliza dinheiro para fazer tudo isto, em dez anos se tem doações na cidade para padre fazer tudo isso.
Já na década imediata, na década de ’70 do século XVIII, o convento do Carmo constrói o claustro, abrem-se duas portas laterais da igreja da Palma, bela igreja que está hoje pouco visitada, pouco vista, mas bela igreja que merece o respeito de todos nós como obra de arquitetura, independente de ser igreja. Os jesuítas são postos fora e a igreja do Colégio é alçada à condição de Catedral; termina-se a fachada do Rosário dos Pretos; São Francisco completa os azulejos que já estavam no claustro, com os azulejos da capela-mor; vêm os azulejos da Lapa, que são bonitos. Entra-se pouco, eu não sei de gente que vai ouvir missa na Lapa. Tem gente que vai, aqui?
Os belos azulejos da Lapa, que não são vistos nem estão no roteiro do turismo.
E chega-se ao atual templo dos Perdões.
Já o século XIX começa a empobrecer, começa a empobrecer porque ocorrem fatos que os homens do açúcar não se deram conta.
Descobre-se a navegação a vapor; então, a Bahia deixa de ser um porto fundamental no Atlântico Sul.
A Inglaterra passa a investir massiçamente no plantio de cana de açúcar no Caribe. Terceiro, um pouco adiante, mas ainda dentro do mesmo sistema, abrem-se os canais de Panamá e o canal de Suez.
Isso é uma prova de como nós precisamos estar atentos às coisas que acontecem aparentemente a distancia.
A Abertura do canal de Suez e a descoberta da navegação a vapor tornaram desértico o Atlântico Sul; até então era normal, era normal, ouçam o que estou dizendo, vou repetir, era normal existir quarenta, quarenta e cinco navios de bandeiras diversas no porto da Bahia, carregando açúcar. Com o açúcar no Caribe e com os atalhos de Suez e de Panamá, o Atlântico Sul perdeu inteiramente a sua vigência. E não é só a vigência do Atlântico Sul, a economia do Brasil, a economia da Bahia perdeu a sua importância.
Mas éramos tão ricos, tão ricos que o século XIX foi um século de empobrecimento, mas que as pessoas só se deram conta no fim, porque o dinheiro era de tal ordem que não deu prá sentir imediatamente.
Então, nós podemos verificar que no século XIX, já nos oitocentos, nós podemos encontrar: São Bento reveste de pedra lioz toda a nave da igreja; Santo Antônio além do Carmo reconstrói e dá aquele aspecto que você tem atual; o Rosário dos Pretos faz a fachada e aquela balaustrada, aquele cercado externo; o Bonfim modifica o retábulo; Santana substitui a talha dourada toda; a Ordem Terceira de São Francisco substitui o piso da nave. Reparem que é sempre substitui, acresce e tal, já não se constrói como no século XVII, como no século XVIII. A Conceição acrescenta aquela balaustrada externa que você conhece até hoje; o Passo coloca altar-mor e altares laterais; a talha dourada do Passo é modificada e prá pior; a igreja de São Domingos tem toda a talha retirada e substituída por alguma coisa medíocre, perde a sua majestade; São Pedro dos Clérigos ganha o aspecto atual, mas nunca foi uma igreja de maiores cometimentos arquitetônicos; o Bonfim ganha a segunda torre, que é relativamente recente porque já é do século XX, de 1902.
Nós temos aqui um recenseamento – eu fiz de propósito – das igrejas da Bahia. É claro que a cada referencia que eu fiz aqui, alguns nomes poderiam ser referidos: José Joaquim da Rocha, pintor de altíssimo padrão; José Teófilo de Jesus. Fiquemos com José Joaquim da Rocha e vamos à igreja da Conceição da Praia.
Quem quiser hoje aprender.
Aqui tem arquiteto que aprendeu com o professor Messias Lemos Lopes, o negócio de pontos de fugas e essas coisas, não tem? Tem.
Quem quiser ver um painel com oito pontos de fuga dentro do mesmo painel, vá à igreja da Conceição da Praia. Quem quiser ver quatro pontos de fuga dentro do mesmo painel, vá ver na Conceição da Praia.
José Joaquim da Rocha dá um – como é que eu diria – dá um show de competência na perspectiva no teto da igreja da Conceição da Praia. É um teto que você tem que olhar de baixo prá cima e olha sem nenhuma distorção nas figuras. Ele era realmente um mestre de fazer isso.
José Teófilo de Jesus fez o forro e as decorações dos altares laterais da igreja do Pilar. Também ele fez isso.
Joaquim Rodrigues Nunes. Eu ficaria aqui desfilando nomes de grandes pintores; até Lopes Rodrigues. Lopes Rodrigues fez o painel de Catarina que está na igreja da Graça, vale a pena ser visto como figura humana colocada no interior de uma igreja, vale a pena ser visto. São esses os principais fatos.
Eu poderia ter vindo aqui hoje fazer uma coisa brilhante, cheia de talha dourada, cheia de mármore, de pedra lioz, mas preferi ser enumerativo, falando para quem está na vida profissional. O trabalho profissional – como é que eu diria – a cronologia das obras aqui enumeradas não teve a intenção de ser maçante, teve a intenção de demonstrar como não havia, sobretudo não havia inauguração de placa. Repare que nós outros, da história, sofremos o que o diabo sofre para achar, às vezes, o nome de alguma coisa que se fosse feita hoje tinha pelo menos três placas, “inaugurado na gestão não sei de quem”, “feito durante o trabalho não sei de quem”, “graças à unificência não sei de quem”. E ninguém punha placa nas coisas que fazia. Essa é uma coisa que me parece muito importante.
José Joaquim da Rocha, José Teófilo de Jesus, Manuel Saldanha são nomes credores do nosso respeito, são nomes credores da nossa admiração, são nomes que dão o exemplo para os profissionais do dia de hoje.
Edição por José Spinola
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