Restauração do Convento e Igreja de Santo Antonio de Cairu



Introdução

O CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO DE CAIRU é um dos monumentos franciscanos de maior importância na história da arquitetura do país. É um produto da efetiva miscigenação do europeu, do índio e do negro africano ao longo dos últimos 3 séculos e meio de forja e composição da liga da civilização brasileira. Finalmente, um marco relevantíssimo da produção barroca no Nordeste Brasileiro.

O Convento de Santo Antônio de Cairu não é somente mais um edifício antigo, testemunha viva do passado e da nossa história. É um dos exemplares mais importantes da Arquitetura Religiosa Brasileira e da Arquitetura Franciscana entre nós, que serviu de protótipo, no seu partido, a outros conventos da Bahia e até mesmo de outros estados.

Numa demonstração da importância da região que as antigas Cartas Régias denominavam de Três Vilas, o que quer significar Cairu, Boipeba e Camamu, pode-se observar que o convento de Cairu foi o primeiro grande edifício franciscano a ser fabricado no Estado da Bahia, antecedendo mesmo o convento principal do Salvador, que existia como sede, mas não no seu desenho atual. Segundo cronologia proposta por Bazin teríamos:

• 1654 - Convento de Ipojuca em Pernambuco
• 1654 - Convento de Sarinhaén em Pernambuco
• 1654 - Pedra fundamental do Convento de Cairu na Bahia
• 1658 - Pedra fundamental do Convento de S. Antônio do Paraguaçu na Bahia
• 1661 - 1665 – Reconstrução do Igaraçu, terminado em 1693 em Pernambuco.
• 1682 - Pedra fundamental do convento de Penedo em Alagoas
• 1684 - Pedra fundamental do convento de Marechal Deodoro em Alagoas
• 1686 - Pedra fundamental do Convento de S. Francisco em Salvador, Bahia
• 1693 - Pedra fundamental do convento de S. Cristovão em Sergipe

Em 2007, contratada pelo Papamel, patrocinada pela Petrobrás, através da lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, e com o acompanhamento do IPHAN - INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL.
foi contratada a empresa Patrimoni para restauração do Convento de Cairu na Bahia.

Para acompanhamento documental do restauro, a Patrimoni contratou o engenheiro fotógrafo José Spinola. O contrato da documentação abrange o acompanhamento mensal através da fotografia e quatro filmes durante todo o período da obra estimado em 2 anos.

No sentido de orientar os internautas visitantes no acompanhamento fotográfico do restauro, Spinola utiliza o roteiro do primeiro filme documental. O visitante para conhecer o local físico no Convento e Igreja, basta clicar na palavra realçada. A atualização das fotos continuará mensal.

Boa viagem!

Roteiro da Viagem pelo Convento e Igreja de Caiuru

Frontispício

Deus,
a cruz ao alto ensina-me o caminho da sua casa.
Ela surge como a aurora,
brilhante como o sol
e formosa como a lua.
Subirei a  colina ao seu encontro.
Chegarei com os mestres, os artesãos e os aprendizes,
para visitar seus aposentos
com os olhos e o coração.

Um a um,
Piso, parede e forro,
Torre, escada e sino.

Aguarda-me no interior da Sua igreja.
 
Não tenho pressa,
deixa-me antes contemplar a fachada da sua casa.

Rés-do-chão,
o pórtico de cinco arcadas separadas por pilastras de ordem toscana;

No meio,
Três tramos centrando janelas envidraçadas
Ladeadas por volutas barrocas e pináculos;

No alto,
Na parte central,
um nicho abrigando uma estátua de Santo Antônio de pedra clara.

No cume do frontispício,
uma cruz em pedra.

Olhando para a esquerda,
a torre sineira em forma de pirâmide recoberta por azulejos.

E um pouco recuada,
por obediência a Ordem Primeira,
As ruínas da Ordem Terceira,
Aguardando ações de restauros e melhorias.

Deus,
Sua casa tem um magnífico frontispício.
Belo, mas singelo.

 Galilé

Passamos pelo último arco à direita
de grades pintadas de azul,
e chegamos à Galilé.

Sentimo-nos na varanda do paraíso!

No teto,
abóbadas com encontros e desencontros de luzes e sombras suaves.
Na parte inferior das paredes,
azulejar gracioso contornado por cercadura de acantos e volutas.
Nas extremidades,
capelinhas dedicadas ao São Benedito e a Nossa Senhora da Conceição.

Portaria

O cheiro forte do perfume da flor da angélica,
preferida dos fiéis de Cairu,
atraiu-nos a entrar ao interior do convento.
Estamos na Portaria, no átrio.
flores, retratos, bilhetes próximos à imagem de São Benedito
revela-nos que o recinto, além de portaria, é para orações.

Claustro

Passando pela outra porta pesada de madeira da Portaria,
chegamos ao claustro de arcadas em asa de cesto.
Pilares engrossados no fuste, de ordem toscana,
sustentam o arquitrave do andar superior.
Fiadas de pequenas albarradas separam painéis de azulejos
com desenhos de golfinhos e jarrões de flores.

Raro Cristo

Na parede do lado da igreja,
vemos um raro Cristo crucificado em azulejos.
O claustro e o Cristo crucificado em azulejo
são da mesma época, 1654, aproximadamente.

 Tapa-vento

Deus,
Deixe que passe pelas portas e janelas a claridade para a sua igreja.
Queremos ver com os olhos e o coração
As capelas, os altares, a azulejaria,
quadros, piso e forro.

Permita-nos retirar o tapa-vento de pintura escaiolada de tonalidade rosa,
Da frente da porta central
E deixar que o raio de sol amarelo clareie ainda mais a sua casa.
 
Sua igreja tem nave única
que vai do baixo-coro até o arco cruzeiro
por onde se passa para a capela-mor.

Forro do baixo-coro

No forro do baixo-coro,
na parte central,
tem um medalhão em forma de octógono
com a imagem de Nossa Senhora da Conceição
portando uma coroa de estrelas.

Ah! Senhor,
contemplando a sua casa, lembramos do verso português:
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.
A obra do Seu querer o homem sonhou para a humanidade,
a obra do Seu querer o homem ergueu para a eternidade.

Piso

O chão da Sua casa é de pedra de arenito e madeira.
Sob a cobertura de madeira,
encontram-se as campas
onde são guardados os restos mortais dos Seus filhos zelosos.

Forro

O Forro da nave única tem forma de gamela.
Tem pintura ilusionista representando cenas da vida de
São Francisco, Santo Antonio e São Domingos.
Visões de Cristo e de Nossa Senhora permeiam as cenas dos santos.
Numa das tábuas do forro, em tinta escura,
Está gravada a data de 1875,
sugerindo a época da sua concepção.

Grade da Sala do Coro

Acompanhando o forro, olhando para o lado da Galilé,
Vemos na parte superior uma grade protegendo a Sala do Coro,
composta por cinco retângulos em treliça,
separados por peças verticais, com pináculos.
Belo frontal com colunas salomônicas,
dossel decorado com lambrequins, 
enfeitado de lírios abertos e bolas pendentes.
Tudo dourado. Tudo belo.
Soubemos que em seu centro encaixava-se um Cristo Crucificado,
preso a uma cruz que imitava um tronco de árvore.

Grade separando arco-cruzeiro

Antes de chegarmos ao arco-cruzeiro,
Separando a capela-mor da nave,
Passamos por uma grade de jacarandá entalhada e torneada,
com balaústres bem esculpidos.

Capela-mor

Chegamos à capela-mor.
Nas paredes laterais,
painéis de azulejos de 1740 retratam cenas da vida de Santo Antonio.
Do lado do evangelho,
“O milagre da mula” e “A pregação aos peixes”.
Do lado da epístola,
“A ceia na casa do incrédulo” e “A cura da criança paralítica”

Na parede de fundo do camarim,
vemos uma imagem de Cristo Crucificado,
de tamanho natural.

Na lateral direita do altar,
a imagem de São Francisco.
No lado oposto,
a de Santo Antônio,
ambas confeccionadas em madeira.

Lados colaterais ao Arco-cruzeiro

Nos lados colaterais ao arco cruzeiro,
Vemos altares com colunas clássicas gregas,
com a parte inferior do fuste em caneluras.
Guirlandas na parte superior das pilastras,
Representam o estilo D. Maria I.
Na parte superior do frontão,
destaca-se um jarrão de flores.
E, nas extremidades do entablamento,
palmas douradas.

No altar do lado direito,
vemos a Nossa Senhora da Conceição.
No nicho inferior deste mesmo lado,
a imagem de São José de Botas.
Do altar do lado esquerdo,
vemos Cristo Crucificado e a Nossa Senhora das Dores.

 Azulejaria da Nave

Deus,
Para decorar as paredes internas da sua nave e de todo o convento,
vieram de Coimbra azulejos nas cores azul e branco.
Painéis formados por silhares de “albarradas
contendo onze azulejos de altura,
apresentam vasos e cestos floridos
com golfinhos e querubins.
Além disso,
cercaduras barrocas de caracóis de folhagens de acanto.
Tudo nas cores azul-ultramar e branco.

Capela de Santa Rosa de Viterbo

Do lado do Evangelho,
na parte central da nave,
admiramos a capela de Santa Rosa de Viterbo,
A peça mais antiga de toda a igreja, datado de 1720.
No altar barroco, do tipo românico,
inteiramente talhado em cedro,
ostenta no nicho central,
a imagem de Santa Rosa de Viterbo.
Imagem esculpida em madeira,
dourada e policromada.
A capela e o intradorso do arco que separa esta da nave,
Tem suas paredes cobertas de azulejos,
retratando cenas da vida de Santa Rosa.

Pinturas a óleo

Na parede de mesmo lado da capela de Santa Rosa de Viterbo,
foram colocadas duas grandes pinturas a óleo sobre madeira.
Uma, representa o bispo São Luís de Tolosa
E, a outra, o bispo Francisco Gonzaga.

Sala do Capitulo

Retornamos ao claustro.
A Sala do Capítulo que fica contígua à Portaria, nos espera.
A sala é pequena e muito bem iluminada pela luz natural,
que entra pelas três janelas que dão para o quintal.
Suas paredes são revestidas do mesmo silhar de azulejos,
que ornam as paredes da igreja e do claustro.
Nas laterais da parede frontal,
encontram-se embutidos dois armários,
com portas dotadas de pintura artística.
O armário à direita de quem entra tem as madeiras da porta pintadas
com o tema do “Encontro de São Francisco com São Domingos de Gusmão”.
O armário do lado oposto,
Tem prateleiras, gavetinhas e portinholas internas.
Na face interna da porta foi pintado um grande jarrão de flores
E, na face externa,
uma pintura representando “São Francisco recebendo as chagas de Cristo”.
No forro, no painel central,
foi pintada a Virgem da Conceição,
de pé, sobre o globo terrestre.
Provisoriamente abriga parte do acervo do convento:
um raro Menino Jesus em marfim, do século XVIII,
a imagem de Nossa Senhora de Brotas, do século XVII,
São Joaquim, São Domingos de Gusmão e Nossa Senhora da Piedade.

Azulejo do Claustro

Voltamos de novo ao Claustro.
Vamos à Sacristia pelo corredor à esquerda.
Na passagem,
admiramos o conjunto de azulejos confeccionados entre 1760 e 1770.
Vejam as decorações!
Alerto meus companheiros de visita.
Ermitões orando vestindo hábito franciscano;
paisagem campestre, onde se vêem montes,
vales, casas, rios, árvores e barcos.
Tudo nas cores azul-ultramar e branco.

Sacristia

Deus,
já nos alertaram sobre o deslumbramento que teremos ao visitar a Sacristia.
Avisaram-nos para aquietar nossos corações
antes de entrarmos no recinto mais nobre
e mais autenticamente barroco de todo o convento.

Ah, Deus,
fizeram um monumento dentro do monumento!

Tudo nos chama a atenção e nos comove neste recinto sagrado:
a azulejaria,
a pintura do forro,
o arcaz e armários embutidos,
o retábulo barroco
o lavabo em pedra de lioz

Azulejos decorados
com serafins, querubins, volutas, rocalhas e formas arquitetônicas. 

O forro foi executado a óleo
e homenageia o patrono do convento.
A cena central mostra um milagre atribuído a Santo Antônio,
quando o Menino Jesus sai dos braços de Maria e é recebido pelo santo franciscano.
Do lado oposto, no alto, sobre as nuvens,
encontra-se sentada a Virgem Maria,
com a mão direita sobre o peito e a oposta segurando um ramo de lírios.
Em outras áreas,
a representação do sol, lua, estrela d’alva, vela acesa, turíbulo e castelo.

Nas paredes laterais,
dois armários embutidos, com gaveteiros e belo frontão.

Entre as portas pintadas de verde,
arcaz em jacarandá e vinhático, com pesados gavetões,
guarnecidos por puxadores de metal dourado.
No espaldar do arcaz,
entalhado em jacarandá,
Oito pinturas com cenas alusivas à vida de Maria,
pintadas em 1786.

Na parte central do arcaz,
retábulo de talha barroca,
com características do período rococó,
de tonalidade amarelada.
No nicho,
uma imagem de Cristo Crucificado.
Na parte superior,
dossel recortado em curvas
contornado por friso em torçal
e lambrequins com decoração de lírios abertos e borlas pendentes.

Lavabo da Sacristia

Do lado das janelas que dá para o quintal,
Está o lavabo da Sacristia.
É esculpido em pedra de Lioz, de Lisboa
e em mármore de Extremoz.
Possui bacia de formato triangular
e parte inferior composta de friso côncavo.
Na parte superior,
um brasão com as armas da ordem franciscana.
No topo,
grande coroa real,
simbolizando a proteção do reino português à Ordem de São Francisco.
O azulejo sobe até a sanca do teto
e o emolduramento encosta-se a esta,
completando o ornamento.

A beleza da sacristia comoveu-nos.
Pensamos em parar a visita por ali.
Todavia, todos os aposentos precisam ser visitados.
Internos e externos,
Limpos e sujos,
Ruínas e restaurados.

Escada com altar

Para chegar à Sala do Coro,
deixamos a sacristia e dobramos à esquerda.
Subimos uma escada com parapeito com terminação em voluta.
na parte superior da escada,
um pequeno altar barroco com a imagem da Nossa Senhora do Rosário.

Sala do Coro

Passando pela parte superior do claustro,
chegamos à Sala do Coro.
No centro da sala em forma de U,
encontra-se o antigo ambão, ou estante de coro, ou antifonário,
em madeira entalhada e torneada.

Deus,
da Sala do Coro temos uma visão mais ampla da Sua igreja.

Da pedra e da argamassa,
os construtores fizeram o interior da Sua casa para a eternidade.

Mas o tempo é inexorável com a beleza que os olhos vêm.
a beleza da Sua casa está revestida de azulejos, madeira e tinta.

Misturam-se com:
a arquivolta do altar,
a asa de cesto,
o friso em torçal e lambrequins,
a fiada de pequenas albarradas,
elementos decorativos faltantes,
fissuras e rachaduras,
sujidades generalizadas
e descolamentos, 

Envolvem-se com
Flores estilizadas,
frisos de gomos,
Guirlandas,
Silhares de albarradas,
Ataque de xilófagos,
madeiras semi-destruídas,
galerias profundas,
Arranhões, abrasões e manchas,

A beleza da Sua casa está desprotegida.

Final

Deus,
confiai-nos a Sua casa.

Somos mestres, artesãos e aprendizes,
profundos conhecedores de história da arte,
das técnicas utilizadas na construção da Sua igreja,
dos materiais usados.
 
Deus,

a Sua casa será restaurada.

 

FIM

02/2007

Escrito por
José Spinola






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